
(O Globo - Brasil - Antônio Carlos Miguel - Foto: Leonardo Aversa - 05/05/2009)
Juntas no palco, Gal Costa e Dionne Warwick provam para que serve a amizade
RIO - Que Dionne Warwick adora o Brasil, todos já estão cansados de saber. Ela chegou a morar no Rio, em 1995, promete se mudar para cá quando se aposentar e tem incluído canções brasileiras em muitos de seus discos. Agora, de volta ao país pelo quarto ano consecutivo - para uma turnê que começa nesta quinta-feira (07.05), às 21h, no Vivo Rio, e depois segue para Curitiba, São Paulo e Porto Alegre -, dessa vez a americana terá como convidada especial uma cantora que, nos últimos tempos, anda sumida de nossos palcos: Gal Costa.
Sim, a baiana não faz temporada no Rio desde abril de 2006, quando apresentou o irregular show "Hoje". Desde então, sua agenda tem sido mais internacional do que brasileira, incluindo elogiados concertos em Nova York, como o que gerou o belo disco "Live at the Blue Note", lançado no Brasil há dois anos.
Reunidas no hotel em Copacabana em que estão hospedadas, além da habitual (e merecida) rasgação de seda, Dionne e Gal relembraram o início da amizade entre elas.
- Já conhecia Gal pelos discos. Eu me encantei por aquele com canções de Dorival Caymmi (lançado em 1976), sempre adorei sua voz, e não me esqueço do primeiro show dela a que assisti, em fins dos anos 1980, no Hollywood Bowl (em Los Angeles), numa noite com Tom Jobim - conta Dionne, que veio conhecer Gal pessoalmente na década seguinte, em Salvador.
A baiana, quatro anos mais moça que a americana - Gal completará 64 anos em setembro, enquanto Dionne chegará aos 68 em dezembro -, diz que foi tocada pelo canto da agora amiga ainda nos anos 1960, quando ela se consagrou como a voz dos sucessos de Burt Bacharach e Hal David.
- Até hoje, Dionne é uma referência para mim. Ela tem um senso rítmico preciso, uma afinação perfeita, um timbre lindo - analisa Gal, também lembrando do primeiro encontro, em sua casa, em Salvador. - Comprei todas as frutas que encontrei e fiz uma mesa linda. Ela adora manga.
A partir desse dia, viraram amigas de infância, mas o sonho de um encontro no palco só agora vira realidade. Na verdade, a brasileira é a convidada da americana. Gal fará alguns números solo, acompanhada apenas pelo pianista Cristóvão Bastos, e depois se juntará a Dionne e seus músicos: Kathleen Rubbico (piano e direção musical), Renato Pereira (percussão), William Hunter e John Shrock (teclados), Ernest Tibbs (baixo) e Jeffrey Lewis (bateria).
Repertório dos duetos ainda é surpresa
Após acertada a participação de Gal, as duas vinham conversando através da internet, usando o Skype, sobre o show e as canções que farão em dupla. Mas esse repertório só será realmente fechado durante os ensaios.
-É surpresa, você só saberá quais as canções durante o concerto - despista Dionne, para depois, cedendo a insistência do repórter, surpreender Gal. -OK! Então darei o nome apenas de uma delas: "That´s what friends are for"
-Não sei se consigo cantar essa -replica a baiana.
-Sim, é claro que você consegue, você pode tudo -devolve Dionne.
Perguntadas sobre a indústria da música nos dias de hoje, Gal é mais pessimista, ou realista, lembrando das dificuldades para montar um show e sair em turnê.
-Atualmente, sem patrocínio, é quase impossível pagar as contas. Os custos subiram muito - diz ela, que, no entanto, promete voltar aos palcos brasileiros no segundo semestre, num show que depois vai virar disco, com direção musical de Jaques Morelenbaum.
-O projeto ainda está no início, mas o repertório será de canções eternas, sem preocupação com novidades.
Dionne, que incialmente, respondera que "a música é um dom divino, acima dessas questões materiais" , concorda com as ponderações de Gal. Mas explica que tem uma receita infalível para driblar qualquer dificuldade.
- A resposta é só fazermos aquilo em que acreditamos.

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