
(Jornalismo Porto Net-Manaíra Aires - Foto: Denise Mutafa - Portugal - 10/04/2009)
Pela primeira vez em Vila Nova de Gaia, Gal Costa actuou na segunda edição do Jazz´n Gaia. Em entrevista ao JPN, a brasileira anuncia um novo trabalho para breve.
Com mais de quarenta anos de carreira, Gal Costa foi um dos nomes grandes que passou pelo Jazz´n Gaia, o ciclo de Jazz que decorreu em Vila Nova de Gaia, de 2 a 4 de Abril. Pouco antes de subir ao palco, uma das maiores cantoras do Brasil falou ao JPN sobre a sua relação com Portugal, os novos projectos e a felicidade em ser mãe pela primeira vez.
JPN: Como é que a Gal Costa se enquadra dentro do Jazz?
GC: Eu acho que a música que eu faço pode ser considerada jazz, de certa maneira. Na verdade, eu sou uma cantora com grande influência da bossa nova, especialmente de João Gilberto, que também é considerado jazz. Eu vou fazer a música que eu faço nos festivais de jazz e nos concertos de teatro em todo mundo, em que eu revisito os repertórios de minha carreira, que tem músicas maravilhosas.
Existe diferença entre o público brasileiro e o publico português?
Eu acho que é a mesma sintonia. No Brasil as pessoas estão acostumada com os seus artistas, mas fora do Brasil eu acho que a reacção do europeu, do publico português, por exemplo, é muito calorosa. Cantar nos EUA é sempre maravilhoso. Também é muito bom fazer espectáculos na America Latina, o público argentino é muito quente, por exemplo. Eu acho que, podendo comprar, o europeu tem uma relação de respeito, de admiração, o que é muito bom, sentimos isso quando estamos aqui. No Brasil também há, mas como somos brasileiros, estamos em casa.
E a relação da Gal com Portugal?
O meu avô materno era português, nascido na Ilha da Madeira. Ele foi para o Brasil, casou-se e teve 13 filhos. As minhas tias também se casaram com portugueses. O sotaque português é-me familiar desse a infância, os meus tios falavam português com o sotaque daqui, então eu tenho uma relação bem forte com Portugal.
O que há de mais peculiar na música brasileira?
A música brasileira tem muitas tendências, é tão rica e tem uma influência negra importante. O Brasil é capaz de fazer música de uma maneira tão própria que não parece ser uma imitação, aquilo soa como brasileiro, não soa como se tivesse roubado alguma coisa de alguém. Isso que é bacana na música brasileira, eu acho que tem personalidade. E as tendências são todas, não vejo uma só tendência. Rock, raggae, hip hop, tudo...
O que é que a Gal mais aprendeu depois de quase quatro décadas de carreira?
Eu ainda estou aprendendo (risos). Eu pretendo ainda fazer muitas coisas, aprendi muito ao longo desses anos e estou aprendendo ainda com o tempo. Eu acho que a vida é assim, cada momento, cada dia, cada experiência é uma aprendizagem nova, tanto no trabalho como na vida pessoal.
Como encara as gerações de hoje, em relação à sua geração?
Eu acho que não falta nada, cada geração é uma geração. Eu acho que a geração nova é um pouco filha da minha geração, e a minha geração foi filha da bossa nova e da música do passado. A música brasileira é riquíssima e existem grandes cantoras, intérpretes e compositoras brasileiras, inclusive que não têm oportunidade de mostrar o seu trabalho no Brasil. Eu acho que não falta nada, aliás, o que falta é muito trabalho, muito incentivo para que as pessoas possam realizar o seu trabalho no Brasil e no mundo todo. Isso é o que falta, o resto não.
Existe alguma cantora brasileira que esteja à altura para suceder à geração da Gal?
Nós temos a Marisa Monte e a Maria Rita. Essas duas cantoras têm, na minha opinião, mais peso e podem construir uma longa história. O importante é você manter uma carreira sólida e firme.
Quais os novos projectos?
Posso dizer seguramente que este ano vou partir para um novo projecto por volta de Julho ou Agosto. Nós vamos ter novidades. Eu vou fazer um novo show, o que resultará provavelmente num CD e num DVD. Há uma ideia que deve ser desenvolvida ainda. Manter a expectativa também é bom, não dá para falar muito sobre uma coisa que ainda está nascendo. Eu estou sem fazer um trabalho novo há quatro anos, mas isso faz parte da história da minha carreira, tem momentos em que eu realmente paro, acho que é bom. Mas tenho trabalhado, tenho viajado com esse show de voz e violão. Fiz também um show com o Quarteto nos EUA, que resultou num disco, gravado no Blue Note.
E o experimentalismo, com a mistura de várias vertentes musicais, está assegurado nesse novo projecto?
Não sei (risos). Experimentalismo não no sentido de procurar romper barreiras ou fazer alguma coisa que seja transgressora, isso tudo eu já fiz muito. Eu acho até burro pensar que eu posso fazer sempre trabalhos para romper barreiras... Eu sou uma cantora, é isso. Na verdade, a minha história com o tropicalismo tem a ver com aquele momento de grandes mudanças, inclusive na minha própria carreira. Mas na verdade eu me acho essencialmente uma cantora, então o que me dá prazer é realmente cantar para estar bem. Eu tenho uma voz cristalina, uma voz que é um instrumento. Então essa coisa musical é o que eu priorizo neste momento.